A Diferença Entre Psicoterapia e Conversar Com Um Amigo

diferença

Para quem ligar quando bate aquela angustia? Para um amigo, ou para um psicólogo?
Neste texto vamos falar um pouco sobre as diferenças entre uma conversa informal e o que encontramos na terapia.

Por Gustavo Ferreira

 

Conversar com um amigo sobre algo que nos angustia é bom, mas é igual terapia? Às vezes a gente senta em uma mesa de restaurante e conversa horas a fio com um amigo e sai super bem, às vezes fica aquela sensação de quero mais, e é possível também que a gente saia da conversa com a sensação que não fomos minimamente compreendidos. Mas isso não acontece também quando saímos de uma sessão de terapia? Afinal, quais são as diferenças entre uma conversa informal e a terapia?

A diferença dos lugares subjetivos, marcado por uma assimetria; os recursos técnicos/teóricos empregados; a temporalidade/periodicidade; e dá pra pensar em muitos outros aspectos que marcam as diferenças. Vamos nos debruçar um pouquinho sobre estes três?

Para começar, vamos falar da relação entre as pessoas que compõe uma conversa informal e uma terapia, procurando enfatizar dois aspectos: compromisso e capacitação. Nos parece que consultar um amigo é positivo por diversos motivos, saber que se tem um amigo com quem contar, já é por si só a percepção de uma conquista. Nem todo mundo tem amigos. Além disso, é uma oportunidade de consultar outra opinião e cruzar experiências de vidas. Em uma conversa, destas que a gente procura o outro para desabafar, é muito provável que se estabeleça uma dinâmica onde um fala e o outro escuta. O que sustenta o lugar de quem fala é sua dor. O que sustenta quem escuta? Nas melhores hipóteses é o interesse pelo sofrimento do amigo, a vontade de ajudar o próximo. Mas qual o seu compromisso com esta conversa? Claro que cada caso é um caso, e se uma conversa basta para que quem procura por ajuda sinta-se satisfeito, não haverá muitas dificuldades para que o par em questão encontre o tempo necessário. Mas e quando a questão é complexa demais para se resolver em um dia? Quem hoje em dia dispõe de tempo abundante para trabalhar, cuidar da família, ter seu lazer e ainda conseguir se envolver profundamente em questões de amigos? E além do tempo, consome. Sair com amigos para comer, ir ao cinema, por exemplo, é diferente de sair para escutar os problemas de um amigo. Na primeira situação ambos tiram proveito do encontro, quando saímos para escutar um amigo, é um momento de entrega, e com freqüência nos esbarramos no limite que cada um tem para esta doação. Este é um diferencial do psicólogo. Ele está ali com disponibilidade para ouvir, e mais, o tempo que ele dispõe e se propõe a refletir sobre as questões trabalhadas em terapia é muito amplo e se estendem ao tempo de duração de encontro. Usualmente o psicólogo revisita as questões em outros espaços, como por exemplo, em supervisão, em suas leituras e às vezes até mesmo em sua análise pessoal. O caráter profissional desta relação convoca o terapeuta a se entregar a escuta, a se colocar de uma maneira receptiva diante do outro, e é justamente esta grande quantidade de envolvimento com o processo, que ele é acostumado a ter, que dá caráter diferenciado a terapia. Além da disponibilidade, o terapeuta é alguém que investe no desenvolvimento de habilidades que o capacitam a estar ali, oferecendo escuta, e o caminho é longo: graduação, estágio supervisionado, aprimoramento, supervisão, etc. Muitos são os meios para a preparação profissional do terapeuta. E isso vai marcar a assimetria na relação. Não que um seja melhor que o outro, não é isso, mas cabe a um deles, o terapeuta, maiores responsabilidades. Quem reflete sobre o processo e o conduz é ele, mesmo que aparentemente desempenhe um papel passivo, escutando, através das suas intervenções ele propõe reflexões que direcionam o processo de auto-conhecimento do outro. Mas o que guia o terapeuta?

A terapia é a parte prática de todo um arcabouço teórico que busca entender a mente humana e seus desdobramentos. O conhecimento construído ao longo dos anos, por diversas escolas de pensamento, por diversos autores, é muito útil para auxiliar quem está procurando superar padrões de comportamento indesejados, pensamentos obsessivos, enfim, impossibilidades de aproveitar a vida cotidiana por conta do sofrimento psíquico. O psicólogo tem atualmente toda uma tradição científica a seu acesso para auxiliá-lo em sua jornada e o entendimento teórico possibilita um apurado desenvolvimento técnico. De certa forma, o terapeuta é especializado em se colocar de certa forma para o outro, que as portas para um diálogo profundo estejam abertas, estando a vontade também para transitar entre temas difíceis do sofrimento humano. E o desenvolvimento científico deste campo contribuiu para um desenvolvimento ético que passa a regular este espaço. Estes dispositivos que o psicólogo tem a mão marcam uma diferença muito grande quando queremos comparar uma terapia com uma conversa informal. Pois enquanto o psicólogo se direciona para se aprimorar na escuta e formas de diminuir o sofrimento psíquico alheio, o mesmo não acontece, necessariamente com a pessoa que procuramos para pedir ajuda. Às vezes colocamos nosso amigo em uma saia-justa, pois pedimos a ele algo que talvez ele não possa nos dar, produzindo nele sentimentos de impotência. Mas e quando o leigo em questão é uma destas pessoas iluminadas, especiais e desenvolvidas em sua humanidade? Elas podem ajudar? Claro que podem, mas gostaria de apresentar nosso último ponto: a temporalidade.

Questões difíceis e profundas não são resolvidas de uma hora para a outra e por isso a terapia tem uma periodicidade. A profundidade na dimensão temporal que caracteriza este espaço cria um cenário favorável para explorar questões também mais profundas. A terapia se propõe a lidar com questões que a pessoa não conseguiu resolver sozinha, e o tempo é importante por alguns motivos. É através do tempo que a relação entre terapeuta e paciente se desenvolve e pode abarcar confiança mútua, que é tão necessária para o bom desenvolvimento do trabalho analítico. Abrir para o outro questões tão íntimas e delicadas, que produzem sofrimento toda vezes que acessamos, é necessário confiar que este outro não vá fazer mal uso destas informações e também é preciso confiar na competência dele. De que adianta sofrer se não há a esperança de transformação? E estas ‘confianças’ só se constroem no tempo.  Ainda é necessário tempo para pensar, repensar e elaborar as causas do sofrimento psíquico. É para dar lugar para todas estas etapas que a terapia normalmente se desenrola como um processo. Novamente nos encontramos com a questão da disponibilidade. Em uma sociedade em que tempo é dinheiro, não é comum encontrar pessoas que tem toda a disponibilidade de tempo que é necessário para trabalhar questões complexas dos outros, de graça. E se for para pagar, que seja para alguém que tem experiência e capacitação.

Enfim, a amizade é uma conquista na vida que deve ser valorizada. Sair e se divertir com amigos é essencial para o bem-estar, e podemos sim contar com amigos. Porém, para algumas questões, principalmente aquelas que persistem ao longo do tempo, a terapia parece ser uma ferramenta poderosa para quem procura por transformações.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *