Iniciando o Trabalho como Psicólogo Clínico: 3 Aspectos Práticos Importantes

Iniciando o Trabalho como Psicólogo Clínico - illustration by jpbohannon 2013

Iniciando o Trabalho como Psicólogo Clínico :

3 Aspectos Práticos Importantes

Juliana Conde

No texto O Desafio de se Estabelecer como Psicólogo Clínico, Luiz Pezzini menciona os três fatores que concorrem para o engajamento profissional – formação, empreendedorismo e aspectos sutis, e disserta lindamente sobre esse último, que na minha opinião, é o mais importante, pois se faz presente em todas as determinantes do sucesso e da realização profissional.

Agora, independente do peso que cada um dá a esses três aspectos, não podemos negar que todos são importantes e influenciam diretamente no crescimento da clínica psicológica. Decidi falar um pouco sobre o empreendedorismo ou, aspectos práticos da clínica, pois como coordenadora do Aprimore há vários anos, fui percebendo quais são as dificuldades e dúvidas enfrentadas por quem quer começar o trabalho clínico. Muitas delas podem parecer óbvias para quem já está nesse caminho há algum tempo, mas não o são para o iniciante.

Procurando uma sala

Dificilmente o psicólogo iniciante vai alugar uma sala por período integral. Dependendo do local, os custos podem ser altos, pois incluem, além do aluguel, gastos para manutenção do local como limpeza, suprimentos, condomínio, entre outros. O ideal é iniciar sublocando horários ou períodos. Mas, e aí? Alugo um período de seis ou oito horas, ou alugo uma hora avulsa para cada novo paciente que aparecer?

Em ambas as escolhas existem prós e contras. Alugar um período faz com que o valor por hora caia significativamente e ainda permite que você tenha maior liberdade com seus agendamentos, principalmente diante de reposições ou pedidos de mudança de horário. Contudo, talvez você pague por uma disponibilidade de sala que ainda não será usada integralmente. Essa decisão depende de quanto você pode dispor financeiramente neste momento. No caso da sublocação por hora, você só vai reservar a sala quando um novo paciente aparecer, mas ficará sujeito muitas vezes a agenda da clínica que subloca e vai pagar inclusive por aquele horário que reservou e o paciente não apareceu. Ou seja, algum investimento de dinheiro sem retorno imediato será necessário, seja alugando por período ou por hora.

Se você dispõe de algum valor para investir na parte física no início da clínica, avalie a possibilidade de se unir a um ou dois colegas, ou mesmo procurar alguém que já tenha sala e queira dividir o seu uso. Fracionar uma sala por 3, e ter 2 dias por semana para utilizá-la, pode gerar um investimento mensal inferior à locação de um período de 6 ou 8 horas. Faça as contas!

Ainda falando sobre essa matemática, é importante que você se pergunte: quanto custa minha sessão nesse momento da minha vida profissional? E qual seria o valor mínimo pelo qual eu aceitaria atender um paciente com limitações ou dificuldades financeiras? Baseado nessa resposta você saberá avaliar se é viável ou não sublocar uma sala cujo o preço por hora pode chegar a R$45,00, por exemplo, sendo que há salas por metade deste valor. Sem contar os custos com o seu deslocamento.

Como já disse, mesmo sabendo que no início de carreira, geralmente, investimos dinheiro, muita gente não está em condições de pagar para trabalhar. Além do valor da sessão que mencionei, faça um cálculo de quanto você pode gastar por mês com psicoterapia, supervisão e espaço para atendimento.

Poxa! Mas esse seria um cenário ideal para o iniciante, muita gente não conta com esse suporte financeiro!

É verdade. E, nesses casos, minha sugestão é que você busque esse suporte, seja para os investimentos que mencionei ou simplesmente pelo fato de que é muito difícil iniciar na clínica quando estamos “sem dormir” porque não temos como pagar as contas! Não estou dizendo que problemas financeiros vão impedir seu crescimento na clínica (na verdade, pode ser o “gatilho” para muita gente), mas, ter o mínimo garantido para suas necessidades e bem estar, vai ajudar (e muito) no início dessa nova empreitada. Um bom exemplo disso são os psicólogos que trabalham em outros lugares (alguns exercendo a função de psicólogo, outros, não) e começam a atender à noite ou aos sábados e, em algum momento, passam a se dedicar apenas à clínica.

Ainda sobre a sala – não deixe de visitá-la! Parece óbvio, mas sei de muita gente que sublocou sala por telefone, deu uma olhada no Google View e levou um grande susto ao chegar no local e ver que as condições da sala eram muito diferentes das descritas ou das mostradas nas fotos. Atender num local onde você se sinta bem, onde o espaço e as pessoas lhe agradem, é muito importante. No fundo, não vai importar se as paredes combinam com as almofadas e tapetes, ou se na sala de espera tem uma Nespresso, se você estiver focado em fazer um bom trabalho. Mas, ser cuidadoso com o ambiente, mostra que você se importa com seu paciente e, em última análise, com você também.

O último ponto que gostaria de citar sobre a escolha sala é em relação à localização. Talvez por um motivo ou outro, o bairro que você mora não seja o ideal para montar um consultório, mas atravessar a cidade para fazê-lo talvez também não seja a solução. Avalie bairros/regiões que você gosta, que costuma frequentar, que seja próximo ao seu trabalho (se for o caso), ou das atividades que você já realiza. Veja se há facilidade de acesso para os pacientes como linhas de ônibus ou estações de metrô – alguém que não tenha carro considera, e muito, esses aspectos, principalmente se lhe escolheu pelo bairro e não por indicação de alguém que já conhece seu trabalho. Vale lembrar que numa cidade do tamanho de São Paulo e com o trânsito caótico que a caracteriza, localização importa muito. Contudo, ela passa a importar bem menos à medida que o reconhecimento do seu (bom) trabalho falar mais alto que seu CEP. Algumas pessoas vão, literalmente, cruzar a cidade para ser atendidas por você.

Divulgação gráfica e digital

Muita gente diz que o bom psicólogo não precisa de cartão de visita, que sua fama precede o Couché fosco com bordas arredondadas e verniz localizado (rs). Mas estamos falando aqui do psicólogo iniciante, não é? Eu gosto de pensar na clínica como uma semeadura, então, cada pequena semente vale a pena. Já recebi alguns pacientes que me procuraram pois gostaram do meu cartão: “…me passou uma coisa boa, sabe?” (SIC). Os cartõezinhos podem ser muito úteis para divulgação no entorno do seu consultório e para agilizar contatos profissionais. Se alguém fala: “Nossa! Você é psicólogo? Sabe, dia desses, me pediram a indicação de um. Você tem cartão?”, Pá! Você saca o seu da carteira e pronto. Mesmo na era da tecnologia em que os cartões começam a ser virtuais (faça-os, também), uma interação muito rápida, às vezes, não permite a troca de telefones ou imagens.

Ainda sobre os cartões, se for fazê-los, dispense um pouco de tempo e dedicação para pensar na identidade do seu. Pode parecer frescura, mas não é. Tudo o que diz respeito à apresentação do seu trabalho pede cuidado e dedicação. Se possível, peça ajuda a um designer, mas pense no que você quer comunicar naquele pequeno pedaço de papel – ele tem “a sua cara”? O que ele transmite? O que mais vejo por aí são aqueles cartões com o clássico tridente da psicologia e muita poluição visual.

Sobre a divulgação digital, não é segredo para ninguém que a internet atravessou todas as formas (ou quase todas) de interação humana e, portanto, profissional também. Não acho que o psicólogo precise, necessariamente, ter uma página, site ou blog (aliás, tudo que escrevi até agora baseia-se na minha experiência, portanto, não servirá a todos), mas confesso que acho esse fenômeno bastante interessante para nós psicólogos – o marketing de conteúdo. Se, por um lado, existem aqueles pacientes que só lhe procuraram pois moram no mesmo bairro que você atende, e aqueles outros, que chegaram pela confiante indicação de um amigo, eu pergunto – e os demais?

Existe uma grande parcela de pessoas que quer ser atendida por um psicólogo próximo (localização), mas que não considera apenas essa característica, quer saber um pouco mais sobre você. É nessa linha de raciocínio que a divulgação on-line, feita através de páginas, sites ou blogs pode ser muito útil. Quando você escreve algo para o público geral por meio de textos ou posts, você se apresenta, mostra sua forma de pensar, e passa alguma ideia de como é sua atuação profissional. Não que alguns textos serão capazes de expressar todas as suas potencialidades e experiências profissionais e nem que um texto “lacrador” seja sinônimo de um excelente profissional. Mas esta é uma via possível e direta com seu potencial paciente. Além disso, escrever sobre algum desafio ou sofrimento humano é sempre uma contribuição social fundamental que você faz, e esse texto pode chegar até alguém que nunca entrará num consultório, por alguma razão (aqui me refiro a um aspecto sutil – dar sem esperar nada em troca. Leia Tambem o artigo: O desafio de se estabelecer como psicólogo clínico

Alianças e parcerias profissionais

Deixei esse aspecto por último pois acredito que ele se relaciona e influencia fortemente os demais. A dica é simples: faça alianças e parcerias profissionais! Sempre! Não me refiro aqui ao oportunismo e jogo de interesses e, sim, a estreitar relações com quem vai lhe ajudar a construir um próspero caminho (e não fazer isso por você). Comece pela escolha de quem vai dividir a sala com você. Essa pessoa é bacana? Confiável? Vocês se dão bem? Lidam com questões de responsabilidade de forma semelhante? Lembre-se que, aqui, o que mais importa não é quão amigo esse psicólogo é seu. Aquele colega de turma que você pouco falava na faculdade pode se revelar um ótimo parceiro de consultório. Por outro lado, já vi grandes amigas romperem por não terem se dado bem numa sociedade.

Faça supervisão! Além de ser uma clara necessidade – principalmente quem está começando -, o supervisor é aquele que, além de lhe orientar nos seus casos, pode, com o tempo, lhe encaminhar pacientes, à medida que sente que você está preparado para determinada demanda. São pessoas com mais tempo de caminhada, mais firmes na clínica, que, as vezes, recebem pacientes e não têm horário livre para atendê-los e, portanto, terão que encaminhá-los para alguém.

Faça contatos com profissionais de saúde. Comece pelos que atendem você! Eu me lembro claramente quando o pediatra do meu filho me disse, em uma consulta, o quanto as dificuldades dos pais que ele atendia não eram da sua alçada e, sim, da de um psicólogo. Vi ali a oportunidade de apresentar meu trabalho. Disse que era psicóloga e que trabalhava com público perinatal. Ele então, me disse: “Nossa! Que bom! Nunca tenho para quem encaminhar esses casos. Não conheço muitos psicólogos. Posso lhe indicar para essas famílias?” Vocês já imaginam minha resposta. Deixei vários cartões com ele e já atendi pelo menos 3 pessoas vindas desse contato. Pessoas costumam confiar nas indicações que os profissionais de saúde que as atendem lhes fazem.
Essas parcerias e alianças podem ser feitas com todo o profissional cujo trabalho, de alguma forma, se relaciona com o seu.

Ah! Mas um dentista não pode me indicar alguém?

Pode, claro (a minha já o fez). Mas alguns profissionais estão mais próximos das pessoas cujas demandas psicológicas se manifestam. Por exemplo: psicopedagogos e professores encaminham para ludoterapeutas, médicos especialistas em dependentes químicos encaminham para psicólogos que também tenham essa especialidade, sem mencionarmos os psiquiatras – sempre! No meu caso, por exemplo, tenho algumas amigas doulas e outras pediatras que me indicam muitas pacientes mulheres. As primeiras, porque identificam dificuldades emocionais que a mulher vive na gestação e, as últimas, porque as identificam no pós-parto. Esses contatos aconteceram, primeiramente, por interesse em receber encaminhamentos? Não! Eu as conheci em cursos e eventos da área, me aproximei de algumas por afinidade e também por admiração pelo excelente trabalho que realizam (é com gente assim que quero trabalhar). É dessa forma que uma bela parceria começa.

Cada aspecto mencionado aqui pode se desdobrar em outros tantos, além dos muitos exemplos que fui testemunha nesses 15 anos de profissão. Se você quer saber mais sobre o assunto, pesquise. Atualmente, muita gente dentro da própria psicologia tem chamado atenção para os aspectos práticos da profissão, de como encarar sua clínica como um negócio, da necessidade de revermos esse tabu em torno da divulgação do trabalho do psicólogo, sem ferir os preceitos éticos em que devemos nos sustentar.

Espero ter ajudado.

Illustration by jpbohannon 2013

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