O desafio de se estabelecer como psicólogo clínico

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O desafio de se estabelecer como psicólogo clínico

O modo como o psicoterapeuta se envolve com seu ofício e se relaciona com a prosperidade pode ser determinante para o sucesso do seu consultório. As dificuldades encontradas para firmar a clínica são pistas do que precisamos amadurecer em nós mesmos.

Luiz C. Pezzini

Diversos fatores concorrem para o engajamento profissional do psicólogo ou psicóloga que decide atuar na clínica. Os mais óbvios referem-se à formação e costumam ser resumidos na clássica fórmula estudo-supervisão-terapia, embora, como veremos, esta formulação se refira apenas ao aspecto básico da formação.

Outro grupo de fatores que podem contribuir para o engajamento na clínica está relacionado a noções de empreendedorismo, tais como visão de negócio, finanças básicas, marketing pessoal – este último muito em voga hoje em dia com o advento das redes sociais e do marketing digital. Às orientações básicas de como iniciar o consultório, tradicionalmente passadas na própria supervisão, somaram-se iniciativas voltadas especificamente para esta finalidade.

Até aqui nada de novo. A grande maioria das pessoas está consciente da participação destes aspectos no sucesso profissional, ainda que o grau de consciência sobre o quanto estão (ou não) em dia com eles varie consideravelmente. Há, contudo, um terceiro grupo de aspectos que, apesar de fundamental, ainda é o mais obscuro e negligenciado. Trata-se dos aspectos mais sutis que determinam a realidade da vida e que aqui se referem ao nosso modo de envolvimento com a profissão. Na verdade, estamos falando de algo que ocorre com todas as pessoas e em relação a todas as áreas da vida. A premissa básica é a seguinte: independentemente de como esteja minha vida, tenho participação na determinação desta realidade. Ora, talvez ninguém mais do que o(a) psicólogo(a) precise estar atento a esta realidade e buscando alinhar-se a ela, pois afinal trabalhamos com isso o tempo todo. A pergunta, portanto, no caso desta reflexão, será: qual é a situação da minha clínica e qual pode ser a minha responsabilidade nisso?

Os primeiros aspectos a serem considerados são os mais evidentes de formação e negócio mencionados acima. Exemplo: a pessoa não faz sequer o básico da formação e espera se dar bem (envolve-se pouco com o estudo ou então se formou e nunca fez terapia). Ou ainda, a pessoa até faz sua parte em termos do básico da formação, mas lhe falta uma noção mais adequada de como fazer do consultório um negócio.

Em seguida, precisamos olhar para os demais fatores – e aqui as possibilidades são tantas quanto os casos, pois referem-se ao destrinchamento de aspectos autobiográficos, da forma como a negatividade se manifesta em cada um e de facetas da autorresponsabilidade.

Investigação do modo habitual de ser à luz da prosperidade

Se o tripé estudo-supervisão-terapia responde apenas pelo aspecto básico da formação, o que haveria além dele? O que há, em essência, é o modo de envolvimento com a formação e as demais coisas da vida que podem contribuir com a pessoa e o profissional que sou e que quero ser. Há um envolvimento real ou ele é apenas formal? Se o modo de envolvimento parece pouco importante, visualise, por exemplo, uma cena íntima a dois com envolvimento. E agora outra sem. Você não diria, nesse caso, que envolvimento “é tudo”? Em outras palavras, quanto que eu realmente gosto de estudar psicologia, de ampliar minha compreensão a respeito das coisas do humano? Quanto estou disponível para o outro e disposto a mergulhar fundo na aventura do autoconhecimento? Consigo viver um encantamento natural pela existência, podendo, dessa forma, aproveitar momentos variados da vida (amigos, eventos, filmes, leituras, etc) para meu engrandecimento pessoal e profissional? Aqui se trata de um misto de envolvimento natural, espontâneo com compromisso e dedicação.

Precisamos também entender melhor nossa relação com trabalho e dinheiro (que são duas coisas distintas, embora relacionadas) e isto tem a ver com marcas mais profundas da nossa história de vida e com as pessoas que foram modelos para nós. Vivemos e presenciamos muitas coisas que podem influenciar positiva ou negativamente nossa dimensão profissional. Só aqui já temos um trabalho que às vezes se estende por anos, de não apenas identificarmos mas também de desmancharmos os nós das heranças negativas.

Estas questões têm relação direta com a possibilidade de prosperidade, mas não são as únicas. Há toda uma gama de aspectos que podem influenciar nossos resultados na clínica porque se referem ao modo como a vida nos é dada, assim como a gravidade é uma lei física à qual estamos igualmente sujeitos. Isso pode parecer, para algumas pessoas, mais questionável que os enunciados da física, mas nem por isso é menos verdadeiro. Apenas menos conhecido e portanto mais misterioso e mais sujeito a preconceitos. Para o psicólogo não deveria soar estranho, pois afinal nosso trabalho parte da premissa de que o modo de ser e de se relacionar de uma pessoa tem poder de determinação sobre os “resultados” que ela obtém na vida. Não fosse assim, a psicoterapia estaria reduziria ao acolhimento das eternas vítimas (todos nós) de situações imutáveis. Vejamos alguns exemplos de como a prosperidade pode se manifestar:

Honestidade: Quanto realmente sou honesto nas minhas relações com os outros, comigo mesmo, com dinheiro (o que faço quando o troco vem a mais?).

Integridade: Há alinhamento entre o que penso, falo e faço? Ou há contradição?

Gratidão: Nossos pensamentos e sentimentos tem força de irradiação e de atração. Quando estamos vibrando na gratidão tudo está certo e somos inundados pela abundância de coisas boas. O contrário nos coloca numa vibração de escassez, de não reconhecimento do que já temos, reproduzindo isso no plano material.

Crenças limitantes: A observação atenta dos pensamento e sentimentos nos mostra as trilhas que se repetem e pode nos revelar as crenças que vem limitando nossa prosperidade. Algumas dessas crenças podem estar imediatamente acessíveis (“cresci ouvindo meu pai dizer que dinheiro só vem com muito sacrifício”) ou podem estar invisíveis num primeiro momento (“depois de um tempo descobri que eu não conseguia ganhar dinheiro por não confiar em mim”). Esta prática de auto-observação é fundamental no estudo da nossa responsabilidade em relação a como a vida se encontra.

Pensamentos relacionados a trabalho e dinheiro: O que penso e como me sinto quando recebo um pagamento? Costumo me conectar à alegria e à gratidão e desejar que nunca falte para esta pessoa que está me pagando? E quando faço um pagamento? Consigo pagar com prazer e gratidão pelas coisas e serviços recebidos?

Medo da escassez: Como lido com os medos, particularmente os de falta e fracasso? Este é um fator bastante forte e que frequentemente atua como impedimento da verdadeira prosperidade.

Cotidiano profissional: No exercício da profissão, como vivo a chegada de um paciente, desde o primeiro contato, depois na entrevista, quando ele cancela, quando comunica interrupção? Como lido com o tema dos honorários?

Presença e conexão: Quanto que estou realmente presente durante os atendimentos, aqui agora, e conectado com o paciente, com a obra de arte que é a sessão? Aqui a questão do modo de envolvimento do terapeuta se refere à própria sessão e à existência diante dele, que é seu paciente. Esta questão do envolvimento é crucial para o bom atendimento mas obviamente precisa ser bem entendida para não comprometer o setting. Abordo a questão das habilidades desejáveis ao psicoterapeuta no artigo “O que espero de um psicoterapeuta”.

Compromissos: Honro os compromissos que assumo com os outros? E comigo mesmo? Em relação ao meu aprimoramento profissional, consigo fazer dele algo natural e constante, integrado à minha vida sem que precise de grandes esforços para isso? Ou é sempre uma luta, um sacrifício?

Ralos de energia: Onde perco energia – tempo, libido, atenção?

Estes são apenas alguns exemplos do que pode ser abordado num trabalho sobre prosperidade. Lembre-se que aqui o exercício é identificar as possíveis relações entre as suas dificuldades ou insatisfações profissionais e as causas delas vindas de você mesmo. É um exercício de autorresponsabilidade – essa mesma autorresponsabilidade que poderá transformar sua realidade insatisfatória.

Quando iniciei o Aprimore, em 2008, um dos pilares da proposta de trabalho era a prosperidade na forma do “dar e receber”, que foi aplicada assim: “identifico em mim meu valor – aquilo que tenho a oferecer e que quero oferecer – e verdadeiramente o coloco à disposição do mundo, e desta forma as pessoas que necessitam disso que eu tenho para dar podem chegar”. Ao me colocar nesta sintonia, ponho em movimento uma energia circular que retorna para mim aquilo que necessito. Mas só funciona se partir de um intento vocacional verdadeiro de doação. Não funciona (pelo menos comigo e nesta escola) quando acontece como barganha com o universo, com vistas apenas no retorno. Mas isso também não quer dizer que não posso desejar o retorno; apenas preciso confiar que ele virá (porque estou fazendo tudo que me cabe e porque a natureza funciona assim) e me desapegar. Desta forma, o dinheiro que necessitamos vem. Quando atendo uma pessoa que pode pagar pouco, vem outra que pode pagar pelas duas.

Muito do que temos visto em termos de uma procura desenfreada (para não dizer desesperada) por pacientes e de um grande incômodo quanto à desvalorização da psicologia tem relação direta, acredito, com o estágio em que nós mesmos nos encontramos no que se refere ao alinhamento com o fluxo da abundância na vida e com a verdadeira apropriação do nosso valor. Não podemos exigir da vida, dos pacientes e da sociedade o retorno de algo que nós mesmos ainda não somos capazes de nos dar. Esta é a base da escassez na psicologia, seja no consultório, seja no modo como é vista de fora. Termino com um convite e um incentivo real: se dentro de você arde o anseio de atuar desta forma a serviço do mundo mas você receia não conseguir viver disso ou efetivamente está encontrando dificuldades para crescer profissionalmente, lembre-se que mergulhar fundo no ser com a firme intenção de transformar o que não está bom e assim manifestar sua vocação de forma mais plena possível é por excelência tarefa do psicoterapeuta, então nada melhor do que começar consigo mesmo. E melhor não perder tempo: o mundo nunca precisou tanto de nós quanto agora.

No próximo artigo abordarei os aspectos da negatividade que nos mantém amarrados impedindo a autorrealização.

26/08/17 – Em homenagem ao Dia dos Psicólogos

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