O Que Queremos Afinal Com Os APPs De Relacionamento?

O Que Queremos Afinal Com Os APPs De Relacionamento?

Paulo Annunziata Lopes e Loa Nadni – Psicólogos membros do NPPI (1)

 

Na segunda metade anos noventa, nos primórdios da internet no Brasil, eram as salas de bate-papo e os comunicadores instantâneos, como o finado ICQ (sigla que pronunciada em inglês tem o som de “I seek you” – “Eu procuro você”), que ocupavam os nossos monitores.  Agora, vinte anos depois, as pessoas continuam procurando umas às outras.  Sempre procuraram, independentemente da época ou do paradigma tecnológico.  Somos seres sociais, somos sempre um ser com outros seres e, neste contexto, procuramos em meio à multidão nossos pares e também um par amoroso.

Temos recebido em nossos consultórios e também no NPPI pessoas que procuram um par através dos recursos tecnológicos, principalmente de alguns aplicativos de smartphone como o Tinder, o POF (2) e o Grindr.  Alguns apps são ainda voltados para públicos específicos – o Grindr, por exemplo, é voltado exclusivamente a homens gays.  Fato é que estes aplicativos são usados por um grande número de pessoas e cabe não só a nós psicólogos mas a todos refletir sobre como estes são utilizados, ou seja, sobre a relação que nós estabelecemos com esta tecnologia.

O funcionamento não é difícil de prever:  como numa rede social, você constrói um perfil, escolhendo um apelido, colocando suas características e preferências e também fotos.  Os apps se utilizam do GPS embutido nos smartphones para determinar a localização de cada usuário e apresentar na tela do celular uma vitrine de perfis daqueles que estão mais próximos (geograficamente)  de você.  É também possível a escolha de ‘filtros’ específicos que selecionam os perfis apresentados de acordo com características específicas mas, mais frequentemente, o uso é feito com base no GPS.

Mas por que o uso do GPS se, historicamente, a localização geográfica não é o quesito primeiro quando escolhemos um par adequado para um relacionamento sério e duradouro?  Nossa alma gêmea (força de expressão, já que a ideia de ‘alma gêmea’ é, no mínimo, questionável) não pode estar a quilômetros de distância, fora do nosso entorno mais próximo?  Uma resposta plausível é a praticidade de se ter, “apresentadas” a você, várias pessoas de uma só vez.  Contudo, seria a praticidade, junto com a proximidade geográfica, a bênção de um relacionamento feliz?  Ou ainda, estão ou não os usuários procurando de fato um comprometimento mais sério uns com os outros?

Sabemos que não há regra que determine um relacionamento feliz.  Mesmo assim podemos dizer que os critérios principais que acabam por ser utilizados na lógica destes aplicativos não favorecem, necessariamente, encontros de qualidade.

Sendo assim não é difícil de imaginar que muitas pessoas não chegam a  mais do que encontros fortuitos nestes aplicativos.  E sua procura por um par falha.  Claro que isto não é regra – mas tem sido comum nos relatos que ouvimos atualmente.  O aplicativo acaba servindo para um contato imediatista com um número de pessoas, para a troca de fotos – muitas vezes íntimas – e de mensagens de texto, mas nem sempre para encontros frutíferos.  Ou, ainda, para encontros com fins meramente sexuais – nada de errado com isto, desde que seja isto que se procura.

É um clichê:  quantidade não é qualidade.  Mesmo assim ele serve para pensarmos nos contatos que fazemos, na qualidade e no propósito de tais contatos.  As tecnologias trazem em si certas características e, no caso dos apps mencionados, trazem a possibilidade da quantidade mas não garantem a qualidade do encontro.  Pode ser argumentado que, com a quantidade, aumentamos nossas chances de achar nosso par.  É verdade – isto é uma possibilidade – mas não é uma certeza.   A quantidade de encontros faz ainda com que incorramos em um risco que é o da falta de foco, o da dispersão de nossa energia afetiva e sexual.    É como se abríssemos várias portas, olhássemos para o que há por dentro delas mas ao invés de por elas adentrar, continuássemos a abrir novas portas deixando as já contempladas  entreabertas.

Ou seja, essa alta quantidade  de opções (de pessoas, de possíveis encontros) cria também uma grande rotatividade  nas relações consideradas casuais, o que muitas vezes leva as pessoas a uma situação de desgaste ou descontentamento.  Isto tem se mostrado cada vez mais presente nos relatos de nossos clientes.

Então, por que as pessoas continuam buscando companhia nos espaços virtuais, mesmo quando não obtém um resultado satisfatório?

Sair e procurar por companhia no dia a dia exija mais empenho, disposição e investimento. O convívio social demanda energia.  O ambiente virtual nesse caso facilita a apresentação, quando as pessoas utilizam fotos em que geralmente estampam sorrisos e causam boas impressões, ou ainda fotos que mostram a aparência física corporal.  Alguns de nossos clientes sugerem ainda que existe sobretudo uma vantagem econômica na socialização virtual, tendo em vista que socializar pessoalmente envolve, muitas vezes, certo gasto financeiro para estar com amigos, familiares e pretendentes em bares, restaurantes, e etc.

A tecnologia nos oferece muitas vantagens mas, mais uma vez, nós do NPPI convidamos nossos leitores a refletirem sobre o uso que fazem da tecnologia, da relação que estabelecem com os dispositivos eletrônicos e no caso do presente artigo, da relação que estabelecem com os apps mencionados. O ambiente virtual é uma ferramenta alternativa, facilitadora da comunicação, mas corre o risco de ser restritivo quando se torna a única forma de interação.  Conectar-se a tantas pessoas com tamanha facilidade não nos abstêm de nossa necessidade do contato e do convívio face-a-face.

Há que se saber o que se procura.  E há que se saber se a maneira de se buscar corresponde àquilo (ou àqueles) que de fato se quer encontrar.

 

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(1) NPPI – Núcleo de Pesquisas em Psicologia e Informática da Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic – PUC/SP.

(2) POF –  sigla para plenty of fish (repleto de peixes).

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