Psicologia e Espiritualidade – Interlocuções

Psicologia e Espiritualidade – Interlocuções

Em encontro realizado no Aprimore em 16/03/2016, Paulo Henrique Curi Dias apresentou alguns dos desdobramentos de seu caminho clínico e acadêmico, em que vem estudando as relações entre mística e psicologia, a partir da vivência em diversos círculos de espiritualidade, tanto enquanto praticante de disciplinas espirituais quanto como observador crítico destas disciplinas. Esse caminho o levou a uma preocupação tanto clínica quanto acadêmica com o diálogo entre a psicologia e a espiritualidade. Do seu ponto de vista, a espiritualidade expande a noção de pessoa, do qual muitas vezes a psicologia está acostumada a tratar, e também a psicologia, por outro lado, complexifica e amplifica o lugar dos conflitos e do sofrimento humano nas motivações espirituais – algo que muitas vezes é desapercebido ou negligenciado nas práticas espirituais como um todo.

O autor define alguns termos, na intenção de evitar confusões teóricas tão comuns nas discussões referentes à espiritualidade. Em sua visão, religião diz respeito a um conjunto de valores e dogmas compartilhados por uma mesma comunidade em relação a concepções sobre o divino. Espiritualidade, por sua vez, diz respeito a um movimento individual da pessoa, quando ela começa a se posicionar na existência a partir da sua concepção de absoluto, de um sentido último da própria vida, sejam essas concepções “atéias” ou não. Já a mística se refere ao conjunto de fenômenos e a teologia decorrente daqueles que têm uma experiência direta com o divino, experiências nas quais a pessoa sente entrar em contato com uma realidade que transcenderia em muito o eu empírico e com isso viver uma experiência de unidade.

O objetivo clínico de sua pesquisa é tanto pensar qual o manejo adequado de experiências espirituais na prática clínica quanto também poder pensar o que é uma clínica compreendida pela ângulo da espiritualidade. O autor apresenta algumas abordagens, especialmente dentro da psicanálise, que se distinguem no modo de se compreender a mística, a partir do autor William Parsons:

  1. Modelo clássico: em que se incluiria, por exemplo, a visão freudiana – no qual a experiência mística ou a espiritualidade de uma pessoa são sempre relacionadas a fenômenos regressivos ou patológicos, que vai desde a análise de Freud a respeito do “sentimento oceânico” até a visão de Franz Alexander sobre o Buda – retratado como um depressivo – e sua experiência de nirvana vista como uma defesa maníaca.
  2. Modelos adaptativos: o modelo de autores que reconhecem a existência de elementos patológicos na existência mística mas afirmam também que a espiritualidade e a mística pode conter elementos curativos para aquela pessoa.
  3. Modelos transformacionais: são as perspectivas que tratam a mística para além do sistema psíquico. São modelos que articulam uma base para se pensar uma dimensão da pessoa na interioridade humana, que é realmente mística, para além do psiquismo. Aqui encontramos autores como Bion e Gilberto Safra.

 Paulo faz uma breve apresentação dos princípios norteadores do pensamento do clínico brasileiro Gilberto Safra. A clínica de Safra é preocupada essencialmente com a condição humana, é uma clínica que tem uma preocupação em não reduzir as dimensões da ética e da espiritualidade a uma posição abstrata, objetificada do ser humano. Safra pensa o modelo de homem a partir da ideia de ícone (modelo do pensamento cristão ortodoxo) e o ícone, sendo o retrato de um santo, é um encontro entre transcendência e imanência, entre o espiritual e o material. A ideia é que o pintor de ícones possa de fato escrever o rosto do santo de tal modo que ele seja uma transcendência. Por um lado o ícone está no mundo, pois afinal de contas ele tem uma materialidade, mas ele está para além da própria materialidade, e essa visão funda a perspectiva da clínica de Gilberto Safra, compreendendo o ser humano enquanto paradoxo entre espiritual e material, infinito e finito, limitado e ilimitado.

Para sustentar essa visão, Safra também utiliza os conceitos de ôntico e ontológico (Heidegger), onde o ôntico diz respeito aos fatos da existência humana, a biografia de uma pessoa, ao registro psicológico, aos afetos e às representações; e o registro ontológico diz respeito a estruturas a priori que determinam a condição humana, as possibilidades disponíveis em cada existência humana e que estão para além dos fatos concretos.

Safra aponta que muitas vezes alguns modelos clínicos dentro da psicologia – na verdade, a maioria dos modelos – tendem a compreender o humano só como o ôntico, como biografia, e com isso perdem a dimensão ontológica, que não é um subproduto do sistema psíquico, mas sim uma região da interioridade humana que tem características próprias que não podem ser reduzidas ao psicológico.

Então, a partir deste modelo, Paulo faz uma análise do místico indiano Ramakrishna, um místico do século XIX que foi muito estudado tanto do ponto de vista espiritual quanto do ponto de vista psicológico, e em cuja biografia podemos encontrar essas diferentes visões de sua vida: de um lado considerado um grande santo, uma encarnação do divino, um verdadeiro mestre espiritual; e do outro extremo considerado como esquizofrênico, psicótico, ou até mesmo como alguém que sofria de um transtorno severo de identidade de gênero e que abusava de seus discípulos. Ramakrishna é, assim, um místico cuja vida abre margens para leituras extremas.

Em sua pesquisa de mestrado, Paulo propõe realizar uma leitura na qual compreende Ramakrishna nem de um lado nem de outro, mas como fronteira destes dois registros – o material e o espiritual, o psicológico e o místico – e através de uma leitura fenomenológico-hermenêutica de uma de suas biografias, busca apontar esse registro paradoxal, esse registro de fronteira em que se encontra tanto a dimensão ontológica, espiritual de Ramakrishna quanto a dimensão ôntica, biográfica e psicológica dele, assim como a maneira pela qual elas encontram-se unidas e interpenetradas.

Paulo busca apontar também como as visões que tentam compreender um só lado do problema são visões limitadas, e que Ramakrishna, ao longo de sua vida, tem uma espiritualidade originária relacionada a uma devoção ao divino e a uma abertura para o real, ao mesmo tempo em que pode observar na sua biografia uma constituição psíquica razoavelmente frágil, que também determina o caráter muito sofrido e angustiado de suas experiências espirituais na medida em que percorre toda sua história em contato paradoxal com o registro místico. Em outras palavras, busca mostrar em suas pesquisas que estes registros – o psicológico e o espiritual – não estão dissociados e se preocupa em conceber um modelo clínico que possa abordar esse paradoxo de modo consistente e rigoroso.


Paulo Henrique Curi Dias
é psicólogo clínico, trabalha com psicanálise, é mestre e doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, sob orientação do professor Gilberto Safra. Clique aqui para acessar sua dissertação de mestrado.

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Encontro Aberto Aprimore Psicologia e Espiritualidade

1 Comment

  1. Bernadete Mafra disse:

    O encontro organizado pelo Aprimore com o tema Psicologia & Espiritualidade, conduzido pelo Psicólogo Clínico Paulo Henrique Curi Dias, sem dúvida representou um marco em minha tomada do papel de psicoterapeuta. A visão trazida por Paulo, a partir de seus estudos e pesquisas me proporcionou uma melhor compreensão a cerca desse tema, aparentemente “separados” e visto com certo “preconceito”.

    A dimensão espiritual consiste em mais uma dimensão humana, assim como a psicológica, a social, a biológica, trazendo a compreensão de um homem ontológico, que não pode ser reduzido a uma única definição e fazê-lo seria limitar as possibilidades de atuação do psicólogo quando diante de seu cliente, experienciando junto com ele situações que vão para além das questões meramente psicológicas.

    Que bom e libertador é perceber como a psicologia e a espiritualidade dialogam entre si e ampliam a atuação do psicólogo clínico, melhor instrumentalizando-o para a sua prática de ajudar o cliente em sua trajetória de transformação pessoal.

    Diante de um paciente que traz questões ligadas a espiritualidade e a mística, de que modo o psicólogo deve atuar? Qual é o manejo adequado para facilitar a integração da pessoa consigo mesma?

    Bernadete Mafra – Psicologia Clínica, Organizacional, Coach, Orientação Profissional e Vocacional.

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