Um olhar sobre a vivência do luto

Um olhar sobre a vivência do luto

Por:  Valéria Bezerra – Psicóloga

Pensar em luto é pensar em perdas. Perdas estas impregnadas de afeto, sentimentos, emoções, memórias, planos, amor e expectativas. O luto também nos remete a assuntos como morte, vínculo, sofrimento, tristeza, choro, e nos leva a alguns questionamentos: Até quando é normal sofrer por uma perda? Cada pessoa vivencia a perda de forma diferente? Algumas pessoas sofrem mais que outras quando perdem um ente querido?
O luto é um assunto que gera muito “pano pra manga”, pois é uma experiência comum a todos. Em algum momento iremos perder algo ou alguém, pois perder faz parte da vida. Perdemos objetos, amigos, familiares, animais, emprego, etc. E cada uma destas perdas exige de nós um enfrentamento que é singular.

Mas porque sofremos, já que perder faz parte da vida?

Pergunta difícil essa, e para tentar respondê-la te convido a pensar na maneira como nos relacionamos com as pessoas, os objetos, os animais, etc. E, posteriormente, o quanto investimos de nós mesmos nestas relações, usando como referencial a perspectiva fenomenológico-existencial que busca compreender o mundo vivido do sujeito, ou seja, sua percepção sobre sua vivência e experiência como ser-no-mundo. A maneira como o fenômeno (vivência) é percebido pela pessoa, reflete na sua atitude frente a vida.Tavares e Andrade ilustram isso, no seguinte trecho:

“o homem como ser singular atribui de maneira única, diferentes significados às suas experiências. ”

Para ficar mais claro, vamos pensar no seguinte exemplo: uma pessoa que perdeu o pai após meses de luta contra um câncer, fica triste, chorosa, e sente um grande vazio, acha que não vai conseguir seguir sua vida sem o pai. Depois de algumas semanas, ainda se sente triste pela perda, mas já consegue fazer planos e coisas de que gosta ou que a faz sentir-se bem. Mesmo que inicialmente a perda tenha sido muito difícil, aos poucos, consegue seguir sua vida.

Outra pessoa que também perdeu o pai, vivencia alguns sentimentos semelhantes a pessoa anterior – está triste, chorosa, sente um grande vazio, mas está, também, revoltada com o que está acontecendo e não aceita a morte do pai. Depois de semanas após a perda, não consegue se ver seguindo a vida sem o pai. Não conseguindo fazer planos e nem coisas que possam lhe proporcionar algum prazer, se isola, não quer sair de casa, não consegue se alimentar como antes e nem dormir.

Nota-se com os exemplos acima, experiências semelhantes, mas com vivencias distintas. Cada pessoa dá um significado único para aquilo que experiência e tudo bem experienciar e vivenciar situações de forma diferente do outro. É essa diferença que expressa quem somos – nossa identidade, características individuais, história pessoal e maneira de se relacionar com o outro e o mundo o qual estamos inseridos.

Do ponto de vista fenomenológico-existencial, todas as relações significativas estão sujeitas ao luto. Somos parte uns dos outros e nosso sentido existencial está atrelado ao sentido do que somos a alguém e do que podemos ser na relação com alguém (Freitas, 2013). Sendo assim, estar em luto exige daquele (a) que o vivencia, ressignificar sua relação com o objeto amado. Ressignificar, aqui, é entendido como construir ou reconstruir a relação com o objeto amado, com base no que já existe e no que se apresenta no momento atual (perda). Algo confuso concorda? Essa confusão tem relação com a nova forma que teremos que desenvolver para nos relacionar com aquilo que perdemos.

Um tanto difícil de imaginar a princípio, pois é um momento de sofrimento emocional intenso, onde tudo pode parecer cinzento, afinal, perdemos alguém que amamos e que nos trouxe coisas boas enquanto estava conosco. E para seguirmos bem, é importante elaborarmos esse processo que é único para cada pessoa e não está determinado por um tempo cronológico, apesar da literatura mencionar uma média de seis meses. Por exemplo, se um homem perde sua esposa, ele está perdendo não só a pessoa que escolheu para estar ao seu lado, mas também os momentos de expressão de afeto, amizade, cumplicidade, espontaneidade, humor, paixão, etc., que viveu com esta pessoa.

Por fim, é orientador para aquele que vivencia o luto, compreender que se trata de uma experiência única para cada pessoa e que cada um tem seu tempo de elaboração. É um momento que nos coloca em contato com alguns sentimentos considerados negativos como: tristeza, raiva, medo, etc., porém, importantes para o processo de elaboração psíquica da perda. É importante lembrar que para minimizar o sofrimento decorrente da perda é bom contar com o apoio dos amigos e familiares, além de tentar continuar fazendo as coisas de que gostamos.

Referencias:

– Brandão, M. Lenise. (2000). Psicologia Hospitalar: Uma abordagem holística e fenomenológico- existencial. Campinas: Pleno.

– Freitas, J. L.; Luto e Fenomenologia: uma Proposta Compreensiva. (2013).

– Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies,19 (1 ),97-105.

– Tavares, J. P; Andrade, C.C. (2009). A escuta fenomenológica comprometida pela ótica religiosa de uma gestalt-terapeuta. Rev. abordagem gestalt. [online].15 (1), 21-29.

Imagem Destacada: Filme “A partida. Versa sobre  a história de um jovem que começa a trabalhar como “Nokanshi”, uma espécie de agente funerário, responsável por preparar o corpo, colocá-lo no caixão e enviar a pessoa que morreu para o outro mundo, agindo como um guardião entre a vida e a morte. Porém seu trabalho é desprezado tanto por sua esposa quanto pelas pessoas a sua volta, mas através da morte é que começa a descobrir o verdadeiro sentindo da vida.

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