Videogame Reflexões sobre a presença dos jogos eletrônicos

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Reflexões sobre a presença dos jogos eletrônicos no cotidiano da família

 

Gustavo Ferreira

O videogame é objeto de desejo de muitas das nossas crianças e adolescentes e é tema freqüente de debates familiares. Como perceber quando a relação de nossos filhos com os jogos deixa de estar na esfera do lazer, para entrar na esfera do patológico? Neste texto iremos refletir sobre esta questão, pensando que não há uma formula exata para lidar com o assunto. Queremos ajudar a compreensão da relação da criança ou adolescente com o jogo, para então ver se é uma relação saudável ou que deve ser cuidada. Os jogos podem, atualmente, ocupar muitos lugares na vida da nossa juventude, podendo ser, além de um passatempo, uma profissão.
 
Gamers
 
Os jogos virtuais vêm crescendo mundo afora e, por vezes, pode até se tornar profissão, os gamers profissionais. Alguns jogos possuem campeonatos elaborados, com premiação em dinheiro, e em alguns casos com números milionários. Outros possuem sistemas de trocas de objetos obtidos virtualmente, por vezes sendo vendidos por dinheiro real. Além disso, há os streamers, que são pessoas que exibem suas partidas ao vivo, atingindo, nos casos bem sucedidos, milhares (ou milhões) de seguidores e conseguindo faturamento real, a partir da alta exposição de imagem que conquistam.
Neste cenário existem ídolos como o Faker, um famoso jogador sul-coreano de League of Legends, que fatura milhões entre premiações em competições internacionais e como garoto-propaganda de diversas marcas mundiais. Enquanto seu filho passa horas jogando, ele pode estar ambicionando ser um jogador conhecido, em uma situação que se assemelha ao sonho de ser jogador de futebol. A analogia com o futebol não para por aí, o cenário dos jogos virtuais é bem seleto, exigindo reflexos ultra-rápidos, grande velocidade de raciocínio, capacidade de manter o controle em momentos de tensão e muitas, mas muitas horas de prática. Assim como no futebol, poucos são o que tem o talento e a disciplina necessária para estar entre os melhores. Porém, seu filho que passa horas jogando, pode estar precisando do seu apoio. Como em outras carreiras, há cursos, coachings, enfim uma gama de opções de investimento que os pais podem fazer para ajudar seu filho a melhorar o desempenho e quem sabe se profissionalizar. Mas como saber se devemos investir nesta profissão? Algumas perguntas são importantes: os jogos que seu filho joga têm um cenário competitivo rentável? Vale o risco de investir em uma carreira tão seletiva e que costuma ser bem curta (normalmente um gamer profissional aposenta os consoles com menos de 25 anos)? E o mais importante: é isso que seu filho quer da vida? Muitas vezes não, e o que motiva ele a jogar é apenas a diversão.
 
Jogadores Casuais
 
O jogo é uma forma de lazer, um passatempo. Antes de ser uma possível profissão, o jogo surge como forma de entretenimento. Existem diversos tipos, plataformas e modalidades. Existem jogos para celulares, jogos para computadores, videogames, portáteis, arcades (raridade nos tempos atuais) e de todos os tipos: estratégia, aventura, combate,  jogos de RPG e jogos competitivos, etc. E eles são instigantes, atuais e bonitos, podendo ser uma fonte potente de diversão. Para saber se a relação do seu filho com os jogos é saudável é interessante olhar para alguns aspectos: Ele vai bem na escola? Ele possui um círculo de vida social? Ele possui e busca outras fontes de prazer? Se as respostas foram positivas, é muito provável que o tempo que seu filho passa jogando não está interferindo negativamente em nenhuma área importante do cotidiano dele.
 
Quando jogar vira um problema?
 
Os jogos eletrônicos fazem parte da indústria do entretenimento, que atira para todo lado, com a intenção de fisgar mais clientes. Cada tipo de jogo, para cada perfil de jogador. Hoje em dia existem estudos científicos, pesquisas de mercado e diversos outros aparelhos que ajudam a construir os jogos de maneira que sejam mais vendáveis. Não é a toa que as crianças e adolescentes se viciam nos games, eles foram feitos para isso. E assim como qualquer outro vício, quando não cuidado, pode trazer conseqüências desastrosas. Quando apenas uma atividade produz prazer, há um estreitamento de repertório, e principalmente para quem ainda está em fase de desenvolvimento, muita coisa pode se perder. É entre a infância e a adolescência que desenvolvemos a habilidade de estar em grupos, a lidar com frustrações, a fazer amizades, a controlar o corpo que está mudando constantemente e muitas outras coisas. Os jogos podem ajudar a desenvolver raciocínio lógico, capacidade de resolver puzzles, mas ele se desenrola em um ambiente controlado e com uma lógica de mercado por trás dele. Muitas vezes o que importa não é se o jogo desenvolve habilidades, e sim se ele vai vender mais. E muitas habilidades importantes simplesmente não podem ser desenvolvidas jogando. Podemos pensar, por exemplo, naquela cena da criança que fica o tempo todo na sala de espera do médico jogando. Ela não vivencia, portanto, não desenvolve a capacidade de esperar a sua vez e a lidar com os sentimentos que afloram nesta experiência.
E como acontece com outros vícios, qualquer tentativa de mudar a rotina de uso, ou acesso, irá provocar reações negativas nas crianças, que irão defender seu direito de jogar a vontade com unhas e dentes. Se seu filho passa o dia inteiro jogando, resiste muito a fazer qualquer outra atividade, e ainda assim volta a jogar sempre que possível, pode ser que seu filho tenha desenvolvido uma dependência aos jogos eletrônicos. Mas o que fazer? Estabelecer em conjunto com seu filho, limites claros e que devem ser cumpridos para o tempo de jogo e ajudá-lo a redescobrir prazer em outras atividades, podem ser as primeiras intervenções.
 
Quando o jogo virtual é para fugir de problemas reais?
 
Passar horas jogando pode ser indício de que alguma outra área da vida da criança não vai bem, e ela encontrou alívio no mundo virtual. Um ambiente familiar tumultuado, bullying na escola, dificuldade de aprendizagem e outras inúmeras possibilidades podem deixar seu filho inibido na vida real. Ser campeão da Champions League, soltar magias incríveis que possibilitam realizar as mais inimagináveis proezas, descobrir tesouros, encontrar espadas lendárias, comandar exércitos, construir um império, dominar o mundo! Tudo é possível! E toda esta potência buscada nos jogos, pode ser uma compensação para um sentimento de impotência na vida real. Neste cenário o jogo não é exatamente o problema e sim um refúgio. Aparentemente é a mesma coisa, a criança passa horas jogando e rejeita intervenções que o afastem do jogo, mas ele tem outra função. Ao invés de estar fisgada pelo potencial aditivo que o jogo tem, trata-se de uma tentativa da criança ou do adolescente de cuidar dos seus problemas, ou de pelo menos mitigá-los. É claro que estamos falando de uma solução problemática e que deve ser cuidada. Desenvolver outras ferramentas para enfrentar estes problemas é fundamental nestes casos.
 
Quando procurar um psicólogo?
 
É interessante pensar que as possibilidades citadas acima não são necessariamente excludentes entre si. Às vezes uma coisa puxa a outra e fica difícil avaliar?. Se seu filho passa muitas horas jogando, você percebe que isso afeta negativamente a vida dele, e enfrenta dificuldades em mudar esta rotina, um psicólogo é importante para ajudar a fazer uma leitura adequada do cenário e pensar se há a necessidade de iniciar um trabalho terapêutico ou não.

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